Como construir instituições à prova do tempo
Claudio Lottenberg revela como boa governança, diversidade de pensamento, inovação e humanismo sustentam instituições relevantes ao longo do tempo.

Presidente do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e da Confederação Israelita do Brasil
CLAUDIO LOTTENBERG Presidente do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein, esse líder de líderes revela como a boa governança e o humanismo são peças-chave para a crescente relevância de um ecossistema que é referência histórica em saúde.
Há médicos que constroem uma carreira bem-sucedida e outros que, além disso, ajudam a redesenhar um sistema inteiro. Claudio Lottenberg, sem dúvida, pertence ao segundo grupo.
Ao longo de quatro décadas, percorreu um caminho pouco comum: foi um dos pioneiros da cirurgia refrativa a laser no Brasil, comandou um dos hospitais mais respeitados da América Latina, liderou empresas do setor privado, participou da formulação de políticas públicas e passou a ocupar uma posição rara, na qual ciência, gestão, inovação e interesse público se encontram.
Sob sua liderança, o Hospital Israelita Albert Einstein deixou de ser reconhecido apenas como um símbolo de excelência da saúde suplementar para ampliar sua presença na pesquisa, na formação de profissionais, na gestão de hospitais públicos e na discussão dos grandes temas que moldam o futuro da medicina. Hoje, como presidente do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e da Confederação Israelita do Brasil, Lottenberg dedica boa parte do seu tempo a uma questão que extrapola os limites da assistência médica: como construir conversas e instituições capazes de permanecer relevantes em um mundo que muda cada vez mais rápido?
Nesta entrevista exclusiva à Empresário Digital, ele fala sobre a passagem da gestão para a governança, explica por que conselhos fortes dependem de diversidade de pensamento e defende uma liderança menos preocupada em controlar pessoas do que em construir propósito. Também aborda temas que estão no centro da transformação da saúde, como inteligência artificial, medicina preventiva, uso de dados, telemedicina e novos modelos de remuneração hospitalar.
Ao revisitar decisões que provocaram resistência — como a entrada do Einstein no SUS, a criação da faculdade de medicina e a aposta precoce na telemedicina —, Claudio Lottenberg revela um traço recorrente de sua trajetória: a disposição de desafiar consensos quando acredita que uma mudança pode produzir impacto duradouro.
Entrevista
EMPRESÁRIO DIGITAL — O que muda ao sair da gestão executiva para a governança?
CLAUDIO LOTTENBERG — Na realidade, gestão executiva e governança tratam de questões diferentes. A gestão executiva é, como o próprio nome diz, executar, fazer acontecer. A governança trata de uma discussão de natureza estratégica, na qual se atribuem papéis.
Na gestão, você discute ações estratégicas, táticas e operacionais. Quem cuida da governança ocupa-se fundamentalmente da estratégia. Quem cuida da execução faz os desdobramentos de natureza tática e operacional. São níveis de atividade que se complementam. A estratégia pensa no médio e no longo prazo. A execução garante que aquilo que foi comprometido no curto prazo continue acontecendo e crie as condições necessárias para que a estratégia seja sustentada no futuro.
"Sempre digo que o líder primeiro causa estranhamento. Depois desperta resistência. Só mais tarde conquista respeito."
EMPRESÁRIO DIGITAL — Em que momento você percebeu que administrar um sistema de saúde exigia muito mais do que ser um ótimo médico?
CLAUDIO LOTTENBERG — Administrar um sistema de saúde também é trabalhar em saúde. Em alguns momentos vivi um conflito, porque parecia impossível conciliar as duas coisas: ser médico e cuidar de uma atividade assistencial sem estar diretamente no contato com o paciente. Muitas vezes pensamos que o atendimento deriva apenas dessa relação interpessoal, como se alguém precisasse se preocupar com medicamentos, infraestrutura, instalações físicas ou suprimentos necessários para um procedimento. Mas essa interação é vital. Quando você é médico e se restringe apenas ao contato com o paciente, pode deixar de perceber detalhes que fazem toda a diferença. Um paciente que retorna várias vezes para um tratamento talvez pudesse ter resolvido tudo em uma única ocasião. O mesmo acontece no sentido contrário. Quem cuida apenas da infraestrutura, sem enxergar o ser humano do outro lado, pode se tornar um profissional frio, incapaz de compreender angústias e necessidades.
Essa conciliação foi fundamental para mim. Tornei-me um médico melhor por entender sistemas de saúde e consegui colaborar muito mais com esses sistemas justamente por ser médico.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Você foi pioneiro da cirurgia a laser para correção da miopia no Brasil. Como foi participar de uma inovação que mudou a vida de tantas pessoas?
CLAUDIO LOTTENBERG — Acredito que fui abençoado por escolher uma área da medicina que tem um papel muito relevante. Enxergar é algo muito importante. A pessoa não precisa estar doente para enxergar mal. Ela apenas depende de um acessório, dos óculos, para ter qualidade de vida. Quando você descobre que pode fazer com que alguém viva sem essa dependência, é extremamente gratificante.
Também tive a oportunidade de participar de uma revolução tecnológica. Até o surgimento da cirurgia refrativa, estávamos acostumados a ver pessoas vivendo de óculos. De repente surge o laser, uma tecnologia pouco agressiva e com um impacto enorme na qualidade de vida. Enquanto outras tecnologias de ponta atendem situações específicas, a cirurgia refrativa alcança milhões de pessoas. Isso produz um efeito que pode ser medido sob a ótica da saúde coletiva. Hoje encontro filhos de pacientes que operei há 30 anos. Em muitos casos estou operando a segunda e até a terceira geração da mesma família.
Outro aspecto interessante é acompanhar a evolução da própria oftalmologia. Vieram os avanços na cirurgia de catarata, tratamentos para doenças antes consideradas incuráveis e uma contribuição importante para a longevidade. E há ainda um componente estético. No passado, o paciente me procurava para trocar os óculos. Hoje ele me procura para deixar de usá-los. Foi uma jornada fascinante participar dessa transformação.
ATÉ O SURGIMENTO DA CIRURGIA REFRATIVA, ESTÁVAMOS ACOSTUMADOS A VER PESSOAS VIVENDO DE ÓCULOS. DE REPENTE SURGE O LASER, UMA TECNOLOGIA POUCO AGRESSIVA E COM UM IMPACTO ENORME NA QUALIDADE DE VIDA.
EMPRESÁRIO DIGITAL — O modelo de gestão do Einstein pode ser replicado?
CLAUDIO LOTTENBERG — Pode, pois é um modelo centrado em processos de qualidade. Nossa sustentabilidade não é construída pelo desperdício, mas por aquilo que chamamos de medicina de valor. Ela nasce da segurança do paciente.
Foi essa política assistencial que nos deu reputação e respeito. As pessoas nos procuram não apenas pelo que fazemos, mas principalmente pelo que entregamos. E esse compromisso é totalmente replicável. Trata-se de fazer as coisas da maneira correta. Não existe razão para que isso não possa ser adotado por qualquer organização.
EMPRESÁRIO DIGITAL — O que as organizações sociais ensinaram à gestão da saúde pública?
CLAUDIO LOTTENBERG — As organizações sociais foram criadas para permitir a participação do setor privado na gestão pública. Elas funcionam porque são mais ágeis. Licitam mais rapidamente, resolvem problemas com maior velocidade e são cobradas por resultados. O modelo tradicional de contratação direta é lento, oneroso e muitas vezes não responde no tempo de que o paciente precisa.
No início havia muita resistência, inclusive por razões ideológicas. Hoje, governos de diferentes orientações utilizam organizações sociais. O importante é que elas entregam resultados com controle social, acompanhamento por métricas e muito mais eficiência.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Os hospitais precisam se preparar para uma medicina cada vez mais preventiva?
CLAUDIO LOTTENBERG — Precisam. Os hospitais terão de assumir uma visão baseada na qualidade de vida. Devem cuidar da saúde, e não apenas da doença.
Também acredito que a remuneração precisa mudar. Ela não pode estar vinculada ao evento da doença, e sim ao valor entregue. Em alguns países já existe o modelo em que o prestador recebe pela vida cuidada, e não pelo número de procedimentos realizados. Nesse modelo, quanto menos o paciente precisar ser internado, melhor. É um sistema muito mais alinhado ao interesse da sociedade. Mudar cultura nunca é simples, entretanto, quando existem incentivos econômicos adequados, essa mudança acontece com mais facilidade.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Como equilibrar inteligência artificial, autonomia médica e responsabilidade clínica?
CLAUDIO LOTTENBERG — Temos discutido inteligência artificial de forma muito pobre. Ela está aqui para organizar o pensamento do médico, não para substituí-lo. Ninguém está retirando a autonomia médica. Na radiologia, por exemplo, houve muita preocupação porque parte da leitura passou a ser automatizada. Hoje o radiologista é muito mais intervencionista do que apenas um profissional que faz diagnósticos. Ele utiliza a imagem para intervir.
A inteligência artificial amplia capacidades. Ela torna o médico mais preciso e objetivo. Nenhum médico sabe tudo. Nenhum ser humano sabe tudo. O papel da IA é complementar informações. O médico consegue integrar essas informações dentro da lógica clínica. O leigo não consegue.
A tecnologia vai nos transformar em médicos melhores e preservar justamente aquilo que é mais importante: o conteúdo humano da relação entre médico e paciente.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Com o uso crescente de dados na saúde, como conciliar inovação, privacidade e LGPD?
CLAUDIO LOTTENBERG — A questão da privacidade de dados é absolutamente vital. Primeiro, precisamos definir claramente o que é uma informação individual e o que é uma informação da comunidade. As informações individuais podem ser utilizadas, desde que de forma anônima e com a permissão de quem é o proprietário desses dados. No caso da saúde, o próprio paciente. Estamos diante de um modelo novo, cuja regulação será construída progressivamente. O que considero inadequado é levantar tantos problemas sem buscar soluções. Imagine a riqueza de dados disponíveis para a pesquisa científica... Quanto conhecimento pode ser produzido a partir de informações pregressas... Se esses dados forem utilizados de forma anônima, o próprio indivíduo será beneficiado no futuro pelo avanço do conhecimento.
Ainda estamos num processo de entendimento e construção de uma regulação capaz de oferecer segurança. Tenho confiança de que a sociedade conseguirá utilizar esse patrimônio da melhor forma possível.
NENHUM SER HUMANO SABE TUDO. O PAPEL DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL É COMPLEMENTAR INFORMAÇÕES.
EMPRESÁRIO DIGITAL — O que um conselho de administração exige que a gestão executiva não ensina?
CLAUDIO LOTTENBERG — Um conselho não exige necessariamente conhecimentos técnicos sobre o setor em que atua. Você pode ter um engenheiro participando do conselho de um banco sem conhecer profundamente a atividade bancária. Da mesma forma, um médico pode contribuir para uma instituição financeira trazendo a visão do cliente. O que um conselheiro precisa dominar são competências de liderança. Ele discute estratégia, não operação. Fala sobre longevidade, crescimento e sustentabilidade da organização. Isso não depende apenas do conhecimento técnico. Às vezes é até positivo que um conselheiro não conheça profundamente aquele segmento, porque ele traz perspectivas diferentes. No Einstein, por exemplo, temos médicos, profissionais de finanças, de seguros, de pesquisa e diversas outras áreas. Essa diversidade multiplica a qualidade das decisões e complementa a visão técnica.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Quais são os principais valores de governança do Einstein?
CLAUDIO LOTTENBERG — O Einstein soube preservar, ao longo de sua história, valores essenciais da tradição judaica: refuá (saúde), chinuch (educação), tzedaká (justiça social) e mitzvá (boas ações). Essa identidade foi, inclusive, objeto de estudos que atribuem parte importante do sucesso da organização à preservação desses princípios.
Além disso, somos uma organização sem fins lucrativos. Tudo o que geramos é reinvestido na própria instituição. Não distribuímos dividendos e nossos diretores não são remunerados por seus cargos de liderança. Esse talvez seja um dos nossos maiores diferenciais. Eu fui presidente do Conselho e presidente da Diretoria sem receber remuneração por essas funções. Sou remunerado apenas pela minha atividade médica. Pode parecer um detalhe, mas isso fortalece um sentimento de pertencimento muito grande. Quem participa da governança do Einstein se apaixona pela organização.
Essa cultura acaba envolvendo também os profissionais contratados. Quando converso com colaboradores, dificilmente vejo alguém falando apenas de remuneração. Claro que todos precisam do trabalho para viver, porém, existe um orgulho muito grande em fazer parte de uma instituição comprometida com valores, ética, conhecimento e desenvolvimento. Esse ambiente acaba contagiando positivamente toda a organização.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Qual foi a decisão mais difícil que você tomou como líder de um conselho?
CLAUDIO LOTTENBERG — Foram várias. Uma das primeiras aconteceu quando percebemos que, para ampliar nosso papel social, o Einstein precisava entrar no Sistema Único de Saúde.
A implantação do programa de transplante hepático também foi uma decisão extremamente complexa. Envolvia uma nova equipe, questões políticas internas e externas e uma mudança importante numa organização que já era bem-sucedida. Valeu muito a pena.
Outra decisão difícil foi defender a continuidade da nossa faculdade de enfermagem. Na época eu era o membro mais jovem da liderança e devo muito ao meu antecessor, Reynaldo Brandt, que confiou na minha convicção de que manter aquela base de ensino era essencial. Essa decisão acabou abrindo caminho para aquilo que hoje é nossa faculdade de medicina.
Também foi desafiador assumir hospitais públicos por meio das organizações sociais. O Einstein foi a primeira organização social a assumir a gestão hospitalar na cidade de São Paulo. Era uma relação completamente nova com o poder público. Eu havia acabado de deixar a Secretaria Municipal da Saúde. Foi difícil assumir a Secretaria e foi difícil deixá-la.
Esses momentos colocam a liderança à prova. Liderar é um exercício muito solitário. Muitas vezes, você paga um preço por decisões que, no curto prazo, não são compreendidas. Sempre digo que o líder primeiro causa estranhamento. Depois desperta resistência. Só mais tarde conquista respeito. Sempre acreditei que esse respeito viria no longo prazo. Talvez por isso tenha tomado decisões difíceis. Estava convencido de que elas eram necessárias para transformar o Einstein numa referência para o Brasil e, hoje, também para o cenário internacional.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Num ambiente onde a emoção supera os fatos e as instituições são questionadas, qual o papel da liderança na defesa da democracia?
CLAUDIO LOTTENBERG — A liderança tem o papel de resgatar a profundidade do debate. Vivemos um tempo em que as narrativas ficaram mais fortes que os fatos, e as pessoas muitas vezes não escolhem mais aquilo que é verdadeiro. Escolhem aquilo que reforça suas emoções, seus grupos e suas convicções prévias. Isso é perigoso para qualquer democracia. O líder comprometido com princípios éticos não pode se calar diante disso. Precisa ocupar os espaços públicos, inclusive as redes sociais, e construir narrativas verdadeiras que façam contraponto à desinformação. A democracia não é perfeição. É construção permanente. E ela se enfraquece quando cidadãos deixam de pensar criticamente e passam apenas a repetir discursos prontos. Nesse momento, alguém sempre ganha poder demais. Por isso defendo menos torcidas organizadas da política e mais cidadãos conscientes. Menos reação emocional e mais reflexão. A democracia depende de pessoas dispostas a pensar por conta própria e a liderança existe para estimular exatamente isso.
EMPRESÁRIO DIGITAL — O que significa liderar a comunidade judaica brasileira num momento de aumento global do antissemitismo?
CLAUDIO LOTTENBERG — Significa uma responsabilidade que vai muito além da nossa comunidade. O antissemitismo cresceu de forma preocupante nos últimos anos, especialmente no ambiente digital, onde a velocidade e a fragmentação da atenção criaram o terreno perfeito para o ódio se espalhar. Combater isso não é defender um governo ou uma posição política. É defender um princípio universal: nenhuma forma de preconceito pode ser tolerada.
A tradição judaica tem muito a oferecer ao debate público mais amplo. Ela sempre colocou o conhecimento, o estudo e o questionamento como valores centrais. Sempre valorizou o contraditório e a construção coletiva. Existe um conceito chamado Tikun Olam, a responsabilidade de ajudar a reparar o mundo, que traduz bem o que entendo por liderança: não se trata de ocupar espaços de poder, mas de assumir responsabilidade sobre o ambiente humano que ajudamos a construir.
Liderar a comunidade desde a pandemia, passando pelo 7 de Outubro, até os dias atuais, é preservar a memória, defender a verdade e, ao mesmo tempo, manter as pontes abertas com toda a sociedade. Porque a liberdade não pertence a nenhum povo. Ela pertence à humanidade.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Depois de tantas conquistas, ainda há espaço para aprender?
CLAUDIO LOTTENBERG — Tenho muito a aprender! Entendo que o maior fracasso do sucesso é o próprio sucesso. Quando você passa a enxergá-lo como ponto de chegada, deixa de se desafiar. E estamos vivendo transformações profundas. A inteligência artificial é uma delas. Ela, sozinha, não resolve nada. O que faz diferença é a maneira como será utilizada pelas organizações e pela sociedade.
Também estamos vivendo uma mudança radical na comunicação. As mídias sociais produzem engajamento e transformam narrativas em percepção da realidade, sejam elas verdadeiras ou não. Por isso considero fundamental que pessoas comprometidas com princípios éticos ocupem esses espaços, construam narrativas verdadeiras e façam o contraponto à desinformação. Outro desafio é envolver os jovens. Tenho a impressão de que muitos estão pouco encantados com a vida pública e com a possibilidade de contribuir para mudanças estruturais. Vivemos uma polarização que leva parte das pessoas a agir como torcidas organizadas e outra parte simplesmente a desistir de participar.
Isso me motiva. É por isso que continuo dando entrevistas, escrevendo livros, artigos, conversando com jovens e participando das redes sociais. Tenho muito orgulho dos valores que orientaram minha trajetória. Sinto que tenho a obrigação de compartilhá-los, não apenas com meus filhos, mas com a sociedade. É isso que me mantém ativo.
TENHO MUITO ORGULHO DOS VALORES QUE ORIENTARAM MINHA TRAJETÓRIA. SINTO QUE TENHO A OBRIGAÇÃO DE COMPARTILHÁ-LOS, NÃO APENAS COM MEUS FILHOS, MAS COM A SOCIEDADE.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Como você gostaria de ser lembrado daqui a muitos anos?
CLAUDIO LOTTENBERG — Prefiro olhar para aquilo que fiz do que para a maneira como serei lembrado. Tenho muito orgulho de ter ajudado a aproximar um hospital que nasceu voltado para a elite de uma atuação fortemente presente na saúde pública. Para mim, saúde não é um negócio. Saúde é um bem social. Pode haver interesses econômicos, mas não consigo conceber que alguém aceite viver sem acesso à saúde ou a outros mínimos sociais. Também gostaria de ser lembrado pela disposição de desafiar modelos tradicionais. Foi assim quando criamos o sistema de triagem liderado por profissionais de enfermagem. Foi assim quando trouxemos a telemedicina para o Brasil. Ela só foi regulamentada durante a pandemia, mas o Einstein já trabalhava com telemedicina desde 2014. Enfrentamos muita resistência, inclusive do Conselho Regional de Medicina. Acreditei que era o caminho. Da mesma forma, enfrentamos desafios para criar uma faculdade privada de excelência e para incorporar instituições que precisavam ser recuperadas.
Sempre procurei exercer uma ousadia responsável. Gostaria que as novas gerações entendessem que ousar é uma virtude quando existe responsabilidade, propósito e compromisso com aquilo que é bom para a sociedade.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Quando olha para as próximas décadas, o que mais te preocupa, e o que mais te dá esperança?
CLAUDIO LOTTENBERG — Preocupa-me a superficialização do debate, a polarização que transforma cidadãos em torcidas e o afastamento dos jovens da vida pública. Tenho a impressão de que muitos estão pouco encantados com a possibilidade de contribuir para mudanças estruturais. Isso é perigoso, porque sociedades fortes dependem de pessoas dispostas a participar e a pensar no coletivo. O que me dá esperança é justamente a possibilidade de reverter isso.
É por acreditar nesse contraponto que continuo dando entrevistas, escrevendo, conversando com jovens e ocupando esses espaços. Tenho orgulho dos valores que orientaram minha trajetória e sinto a obrigação de compartilhá-los.
Sobre planos para o futuro, tenho aprendido que futuro não é algo moldado somente pelos nossos sonhos. A tradição judaica diz que nós fazemos planos e Deus dá risada. O que posso afirmar é que meus planos e meus sonhos nunca se restringiram ao meu mundo individual. Toda vez que surgir uma convocação com finalidade coletiva, estarei aberto a analisar. Talvez seja essa disposição — a de servir quando se é chamado — o que dá sentido a tudo que construí até aqui.
EMPRESÁRIO DIGITAL — Todo médico precisa ser, necessariamente, um humanista?
CLAUDIO LOTTENBERG — Não consigo conceber um médico que não seja um humanista. O tecnicismo e a visão cartesiana explicam muitas coisas, mas o ser humano não é lógico. As reações são individuais. As interpretações são únicas. Uma mesma doença produz impactos completamente diferentes em pessoas diferentes. Quem não desenvolve uma visão humanista dificilmente compreenderá essa diversidade.
Não digo que alguém nasce humanista. O humanismo é construído. Ele nasce da leitura, da cultura e do desenvolvimento da fé. E não falo necessariamente de religião. É possível desenvolver fé sem uma religião específica.
Um médico que não transmite confiança encontra dificuldade para cuidar das pessoas. Muitas vezes o paciente não precisa apenas de um tratamento. Precisa acreditar naquele ser humano que está diante dele.
Claudio Lottenberg
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