A vez da indústria no Interior?
Desde 2002, as cidades do interior do Brasil vêm consistentemente crescendo mais e gerando mais empregos do que as capitais. Em dezembro de 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio. Desde então, impulsionado pelo crescimento da demanda chinesa por alimentos, o agronegócio tem sido uma das principais molas propulsoras da economia brasileira e as cidades do interior do país têm superado as capitais em crescimento econômico. Os chineses são muitos, eram muito pobres e, com o país crescendo, muitos passaram a ter mais dinheiro e a comer mais e melhor.
Enquanto isso, o ganho de mercado da indústria chinesa teve um impacto extremamente negativo na indústria brasileira. Os chineses inundaram o mundo de produtos baratos e para completar, o Brasil não fez nada para reduzir os custos e estimular a produção no país. Nos últimos 15 anos, só estimulamos o consumo. O resultado? A indústria brasileira encolheu e demitiu muita gente.
No início deste ano, uma destas tendências mudou, a outra não. Os empregos continuaram a ser gerados nas cidades do interior. Das 20 cidades que mais criaram empregos nos primeiros 5 meses desse ano, 19 estão no interior. A única exceção foi Goiânia, que apesar de ser capital é positivamente impactada pela agroindústria. Das 27 capitais, apenas 3 abriram mais novos postos de trabalho formal nesses primeiros 5 meses do que fecharam, entre outras razões em função das dificuldades agudas vividas pelo setor público, do qual as economias de várias capitais de estados dependem bastante.
A novidade é que agora a geração de emprego foi liderada pela indústria. Das 20 cidades que mais cresceram, em 5 a agroindústria foi o setor que mais contratou. Foi o caso em Vacaria - RS, em Cristalina - GO, Patrocínio - MG e Mogi Guaçu e Bebedouro - SP. Mas em 11, incluindo Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires - RS, Nova Serrana - MG, Juazeiro - BA, Goianésia - GO e Pontal, Vista Alegre do Alto e Birigui - SP, o setor que mais contratou foi a indústria.
Em algumas cidades do interior que lideraram a criação de novos empregos, foram exatamente os subsetores industriais que recentemente mais passaram por dificuldades que lideraram a geração de empregos. Em Joinville - SC, foi a indústria de autopeças que mais criou empregos. Em Franca – SP, a cidade que mais gerou empregos em todo o Brasil, as contratações vieram principalmente da indústria calçadista, que até pouco tempo era dizimada pela concorrência chinesa.
O que deixou os empresários industriais confiantes para fazerem esses investimentos? A expectativa de que a produção no Brasil ficaria mais barata e competitiva nos próximos anos. Eram esperados dois grandes estímulos à redução de custos e, por consequência, à produção e à geração de empregos. Primeiro, a Reforma Trabalhista. Hoje, há dúvidas se ela será aprovada. Mesmo que seja, concessões significativas para sua aprovação tornaram-se prováveis. Consequentemente, seu impacto de redução de custos – principalmente legais – deve ser menor, assim como sua capacidade de estimular a criação de mais empregos.
Segundo, esperava-se uma Reforma Tributária que reduziria tanto os custos burocráticos, com a simplificação de nosso sistema tributário ultracomplexo, quanto a carga tributária. Menos impostos e menos custos com contadores e advogados barateariam os produtos nacionais, tornando-os mais competitivos e, por consequência, estimulando mais investimentos e empregos. Infelizmente, hoje, sem a perspectiva de aprovação da Reforma Previdenciária - que reduziria gastos públicos, criando espaço para reduções de impostos – a possibilidade de uma Reforma Tributária que reduza a carga de impostos no país parece remota. É mais provável que os impostos subam, ao invés de cair.
Um novo ciclo de crescimento e geração de emprego se iniciava. Após 13 nos consecutivos em que as vendas do varejo tiveram melhor desempenho do que a produção da indústria, tudo indicava que a indústria seria uma das líderes deste ciclo de crescimento. A questão agora é se o agravamento da crise política após as delações da JBS não vai abortar ou ao menos postergar este novo ciclo.
Ricardo Amorim
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