Contar histórias sem dizer uma palavra
O extraordinário tem bastidores. E, quase sempre, eles são maiores do que o palco.

O extraordinário tem bastidores. E, quase sempre, eles são maiores do que o palco.
Na terça-feira, 6 de outubro, a EQI Investimentos reuniu clientes, amigos e parceiros para uma experiência com o Cirque du Soleil. Entre a apresentação, as conversas e uma prévia de Alegría - In a New Light, uma ideia foi ganhando forma para mim… existem empresas que explicam seus diferenciais. Outras criam situações em que podemos percebê-los. A EQI, apresentadora oficial da turnê brasileira, escolheu colocar essa percepção em movimento. (cirquedusoleil.eqi.com.br)
Quem olha para um artista suspenso no ar vê alguns segundos de beleza. Quem escuta os bastidores descobre anos de preparação, milhares de toneladas de equipamentos e centenas de pessoas trabalhando para que aqueles segundos aconteçam.
Gosto desse encontro entre emoção e dados. Os números não diminuem o encantamento. Revelam o tamanho do trabalho necessário para produzi-lo.
A diretora artística Rachel Lancaster explicou o que torna aquela linguagem tão particular: contar histórias para pessoas do mundo inteiro recorrendo, sobretudo, ao corpo, à música, ao movimento, à expressão e à presença cênica. Uma criança pode se encantar com o que vê. Um adulto pode encontrar outra camada na mesma cena. Não precisam compreender tudo da mesma maneira para pertencer ao mesmo universo.
O Cirque constrói um senso de lugar. Cenografia, figurino, iluminação, trilha sonora e acrobacia trabalham juntos. Cada elemento ajuda a narrativa a avançar. O público se surpreende com a performance e encontra um caminho para compreender o que sente.
Pensei no quanto isso faz falta no mundo empresarial. Há organizações com excelentes produtos, profissionais competentes e tecnologia de ponta, mas cuja experiência parece feita de peças que nunca conversaram entre si. O cliente precisa fazer sozinho o trabalho de montar o quebra-cabeça.
No Cirque, essa integração começa muito antes de a lona subir. Segundo a apresentação, uma produção pode levar cerca de dois anos entre a primeira ideia e o encontro com o público. Pesquisa e desenvolvimento atravessam acrobacias, música, som, luz, figurinos e tecnologia. Experimenta-se para descobrir o que é possível… inclusive aquilo que ainda não parecia possível.
Essa é uma visão de inovação que me interessa. Há método para explorar o desconhecido. Há liberdade criativa, mas também existe uma ideia principal a proteger.
Rachel trouxe outro ponto que ficou comigo: o espetáculo nunca está verdadeiramente pronto. Existe uma data de estreia. Depois dela, continua o trabalho de observar, ouvir, aprender e evoluir. Na rotina descrita, são cerca de 300 apresentações por ano, em cidades, países e ambientes diferentes.
Preservar a essência enquanto tudo continua mudando exige discernimento. Quem protege cada detalhe do passado pode impedir a evolução. Quem muda tudo pode perder justamente aquilo que fazia a experiência valer a pena.
Alegría carrega essa tensão. A versão original, apresentada entre 1994 e 2013, alcançou mais de 14 milhões de espectadores em 255 cidades. A releitura lançada em 2019 parte desse patrimônio afetivo para renovar a experiência. Preserva melodias e emoções reconhecíveis, enquanto transforma a maneira de apresentá-las a outra geração.
É uma pergunta importante também para qualquer empresário: o que merece permanecer em nossa empresa… e o que precisa ganhar outra forma?
Os dados sobre os artistas ajudam a compreender como essa reinvenção acontece. Na composição apresentada naquela noite, aproximadamente 25% vêm do esporte de alto rendimento, 45% das artes circenses e 30% de outras disciplinas artísticas.
O atleta traz precisão, competição e resultado. No palco, precisa acrescentar personagem, emoção e presença cênica. A habilidade extraordinária ganha sentido quando passa a fazer parte de uma história.
Nas empresas, também contratamos capacidades individuais esperando que, juntas, produzam algo maior. Só que reunir talentos é o começo. Criar um universo coeso dá muito mais trabalho.
E quanto trabalho cabe debaixo daquela lona.
Foram apresentados cerca de 2 mil toneladas de equipamentos, transportados em 85 contêineres de 40 pés. Oito dias para montar a estrutura. Dois dias e meio para desmontá-la e preparar o próximo destino. Mais de 40 profissões envolvidas, além de hospedagem, alimentação, vistos, serviços e apoio à vida de quem percorre o mundo com a companhia.
Na operação brasileira descrita pela IMM, são aproximadamente 130 pessoas da equipe do Cirque e outras 470 na estrutura local. Cerca de 600 profissionais entre produção, recepção, segurança, limpeza, administração, lojas, bares e alimentação.
O terreno necessário tem pelo menos 21 mil metros quadrados. O planejamento começa dois anos antes da chegada da turnê.
Há uma cidade trabalhando para que outra cidade possa se encantar.
Stephanie Mayorkis, à frente da divisão de entretenimento da IMM, apresentou a dimensão empresarial dessa experiência. Nas quatro turnês anteriores, segundo os dados compartilhados, foram 1,35 milhão de espectadores no Brasil. São Paulo está entre os mercados capazes de superar 200 mil ingressos vendidos.
A comparação com a Fórmula 1 apareceu como referência de categoria e relevância comercial: um ativo global, raro, com forte capacidade de mobilizar público e marcas. São experiências diferentes, mas ambas exigem uma operação de grande porte para entregar algo que o público espera lembrar por muito tempo.
A IMM apresentou ainda um público com 70% de formação superior, NPS descrito como muito elevado e 98% de intenção de voltar. Esse último número merece atenção: intenção de retorno ainda precisa se transformar em nova compra. Mesmo assim, indica a força do vínculo produzido pela experiência.
Somado ao baixo risco reputacional apontado pela empresa, ajuda a explicar por que uma marca financeira escolheria estar ali.
O custo de produção informado supera R$ 100 milhões. Uma operação dessa dimensão precisa acertar cidades, duração das temporadas, preços, setores e ocupação. Sua receita se apoia em cinco frentes: bilheteria, patrocínio, alimentos e bebidas, produtos oficiais e hospitalidade.
O encanto precisa encontrar sustentabilidade econômica para continuar viajando.
A estimativa apresentada de impacto econômico entre São Paulo e Curitiba se aproxima de R$ 300 milhões. Quase 40% do público paulistano viria de fora da capital, movimentando hotéis, restaurantes, transporte e comércio.
Esse impacto não é o lucro da turnê, nem permite calcular seu ROI. São contas diferentes. Mas mostra como o valor de uma experiência pode atravessar os limites de quem a produz.
Foi nesse contexto que a história contada por Juliano Custódio, fundador e CEO da EQI, encontrou o espetáculo.
Ele remontou ao início de sua trajetória empresarial, em março de 2008, às dificuldades da crise financeira e aos primeiros seis anos de uma operação pequena. Recordou que, por volta de 2014, acompanhava aproximadamente R$ 15 milhões em investimentos. O encontro com o marketing digital e o desenvolvimento do Eu Quero Investir abriram outro caminho.
Segundo seu relato, vieram anos de multiplicação do negócio: seis vezes, depois três, mais três, depois duas. Ao recordar uma etapa posterior, mencionou R$ 30 bilhões e 60 mil clientes. Marcos de uma trajetória que cresceu e passou a enfrentar novos desafios.
Entre eles, um problema conhecido por quem trabalha com dados e aquisição de clientes: aumentar o investimento em publicidade deixou de produzir crescimento na mesma proporção. Colocar 50% a mais no orçamento não significava receber 50% a mais de conversões.
A estratégia precisava evoluir.
Juliano explicou a aproximação com o Cirque como uma transferência de atributos. Inovação, cuidado com os detalhes, disciplina de execução e experiência eram qualidades que a EQI queria tornar perceptíveis.
A escolha ganha sentido porque esses atributos podem ser observados ali. Estão na integração do espetáculo, na logística, no ensaio e na atenção ao público. Até a luz para a leitura, a posição de uma cadeira e o caminho para subir ao palco precisavam ser conferidos.
Achei esse detalhe revelador. A confiança começa a ser construída muito antes do grande momento.
Vejo aí o paralelo mais consistente entre o Cirque e o que a EQI busca desenvolver. Diferenciar-se exige criar uma experiência própria e sustentá-la na execução. Para uma empresa de investimentos, essa promessa precisa continuar sendo comprovada no atendimento, na clareza das informações e no cuidado cotidiano com o patrimônio de seus clientes.
O encontro promovido pela EQI abriu espaço também para relacionamento. Conversas antes e depois da apresentação, aproximações entre clientes e parceiros, possibilidades de negócios. O retorno desse investimento deverá ser acompanhado em reconhecimento de marca, qualidade das relações, retenção e oportunidades concretas ao longo do tempo.
Naquela terça-feira, tive a oportunidade de olhar para o espetáculo por esse outro ângulo. A pesquisa que precede a criação. A diversidade que amplia as possibilidades. Os processos que sustentam a beleza. A disposição de evoluir sem abandonar a ideia principal.
Talvez por isso contar histórias sem dizer uma palavra seja tão difícil.
Tudo o que está em cena precisa falar.
E, para que um artista pareça voar sozinho, centenas de pessoas precisam acertar juntas.