O cliente não veio no prompt
Criar um produto ficou mais fácil com a inteligência artificial. Transformá-lo em negócio ainda exige entender pessoas, conquistar confiança e resolver problemas pelos quais alguém aceita pagar.

Imagine a cena… o empreendedor vira a madrugada, conversa com a inteligência artificial e, antes do café, tem nome, marca, site e um protótipo funcionando. Manda no grupo. Recebe palmas, foguetes e aquele “vai dar bom” de quem não pretende comprar. Ao meio-dia, abre o painel de vendas. Nenhuma.
Essa reflexão nasceu de um encontro no Sweet Secret para membros e convidados, sobre como a IA está redefinindo o papel do CEO. A conversa reuniu Guga Stocco, fundador e CEO da Redmind Creative Capital, e Hugo Dória, CTO e fundador da Popcode, com mediação de Guilherme Junqueira, CEO da Delta Academy. Entre tantas possibilidades tecnológicas, uma questão atravessou o debate… criar um produto ficou mais fácil. Conquistar mercado, mais difícil.
A facilidade de construir é extraordinária. Mas tem um efeito colateral… ela também chegou ao concorrente. Quando mais gente consegue colocar uma solução de pé, aumenta a disputa pelo tempo de quem poderia usá-la. O cliente continua com uma agenda cheia, um orçamento limitado e pouca disposição para descobrir por que o seu aplicativo merece existir.
É aí que o entusiasmo tecnológico encontra uma tarefa antiga… entender pessoas. Qual problema incomoda o suficiente para justificar uma compra? Quem decide? O que essa pessoa precisa abandonar para adotar a novidade? Às vezes, o maior adversário de um produto é uma planilha ruim, conhecida há dez anos, na qual alguém confia mais do que na sua demonstração impecável.
Nesse cenário, os dados mais valiosos podem estar nas propostas recusadas, nas dúvidas do atendimento e nos motivos de cancelamento. Ali aparecem obstáculos que nenhuma sessão de entusiasmo entre sócios revela. Há uma diferença enorme entre desenvolver o que conseguimos imaginar e descobrir o que alguém aceita pagar para resolver.
Também convém olhar para o dia seguinte à demonstração. O sistema precisa funcionar com os dados reais, conversar com outras ferramentas e suportar os erros de quem usa. Alguém terá de responder quando falhar. A confiança nasce dessa continuidade, bem menos fotogênica do que o lançamento.
A inteligência artificial pode encurtar o caminho entre uma ideia e um produto. Transformar esse produto em negócio exige atravessar a distância até o outro… compreender sua rotina, merecer sua atenção e entregar algo que faça falta quando deixa de funcionar.
Depois dos foguetes no grupo, ainda será preciso ouvir um cliente dizer… “Pode mandar a proposta.”
Marco Marcelino
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