A pergunta que o sucesso não faz
Organizações vencedoras podem apodrecer por dentro enquanto celebram por fora. A longevidade começa quando o líder interroga o erro que o sucesso esconde.

Existe uma frase que Claudio Lottenberg soltou no meio da conversa, quase sem cerimônia: "O maior fracasso do sucesso é o sucesso".
Ao escutá-lo, parei por alguns segundos, pois ali, em oito palavras, estava o diagnóstico mais preciso que já ouvi sobre por que organizações vencedoras apodrecem por dentro enquanto celebram por fora. Tenho a sensação incômoda de que a maioria de nós administra empresas fazendo a pergunta errada. Queremos saber o que estamos acertando; passamos reuniões inteiras colecionando confirmações, e chamamos isso de "gestão".
Depois de ler a entrevista na íntegra, você também sairá com essa constatação, porque ele passou a vida perguntando o contrário.
O Dr. Lottenberg presidiu o Hospital Israelita Albert Einstein, comandou a Unimed nacional, foi secretário de Estado da Saúde de São Paulo e, como oftalmologista que é, operou três gerações sem e com o laser que ajudou a introduzir no Brasil. Um currículo assim costuma produzir homens que respondem. No caso dele, curiosamente, produziu um homem que pergunta.
Repare na telemedicina. O Brasil regulamentou o atendimento remoto em 2020, empurrado pela pandemia, como quem assina um documento com a casa já em chamas. O Einstein operava telemedicina desde 2014. Estados Unidos desde 1994, Reino Unido desde 1996, e até Venezuela e Angola chegaram antes de nós.
Lottenberg enfrentou o próprio Conselho Regional de Medicina para sustentar aquilo. Seis anos de solidão institucional. O que ele fez, no fundo, foi identificar o erro do sistema antes que o sistema tivesse coragem de admitir que errava.
Venho estudando há anos esse tipo de comportamento — a capacidade de tratar o erro não como acidente a esconder, e sim como método a interrogar.
Escrevi um livro inteiro em torno de uma única pergunta, e cada vez que encontro um líder da estatura de Lottenberg confirmo que os grandes já a fazem instintivamente, muito antes de qualquer teoria: eles não perguntam por que deu certo; perguntam onde está o erro que o sucesso está escondendo.
A governança, ele disse, é isto: o executivo cuida do trimestre; o conselheiro cuida daquilo que o trimestre não enxerga. Um discute o resultado, o outro discute a sobrevivência. Por isso Claudio Lottenberg defende conselhos com engenheiros em bancos e financistas em hospitais. Quem conhece demais o negócio tende a confundir familiaridade com verdade. O olhar de fora não sabe o suficiente para ter certeza, e é justamente aí que mora sua utilidade.
Sobre inteligência artificial, a mesma lucidez sem histeria: "tecnologia não substitui o médico, organiza o pensamento dele". Sobre dados, a mesma impaciência produtiva: "É inadequado levantar tantos problemas de privacidade sem buscar soluções, quando informações anonimizadas poderiam acelerar décadas de pesquisa científica". O dado, para ele, não é ameaça nem enfeite, mas bússola.
Quem trabalha com inteligência de mercado há mais de vinte e cinco anos, como eu, reconhece um irmão de ofício quando encontra um.
O que fica dessa conversa não é a tecnologia nem a gestão, nem os prêmios. É a moldura ética de um homem que presidiu por décadas uma das maiores organizações de saúde do país sem receber um centavo pelos cargos de liderança. Que sustenta o argumento de que saúde pode ter interesses mercantis, mas jamais será um negócio, porque é um bem social. Que define humanismo não como dom de nascença, mas como fruto de leitura, de fé, de construção deliberada. Um médico sem fé não passa confiança, ele diz. E paciente nenhum se cura só de remédio.
O Einstein não virou referência internacional apesar das perguntas incômodas. Virou por causa delas.
O sucesso responde o que a longevidade pergunta.
"O erro não é um acidente a esconder, mas um método a interrogar."
— Marco Marcelino, Publisher