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Fazer é uma coisa. Fazer bem feito é outra completamente diferente

Existe uma ilusão perigosa circulando nas salas de reunião e nos escritórios de líderes ao redor do mundo. É a ideia de que usar uma ferramenta poderosa equivale a dominá-la. Que ter acesso a uma inteligência capaz de processar mais informação do que qualquer ser humano em segundos é, por si só, uma vantagem competitiva. Não é. Nunca foi.

Por Raul Nogueira··3 min de leitura
Fazer é uma coisa. Fazer bem feito é outra completamente diferente
Existe uma ilusão perigosa circulando nas salas de reunião e nos escritórios de líderes ao redor do mundo. É a ideia de que usar uma ferramenta poderosa equivale a dominá-la. Que ter acesso a uma inteligência capaz de processar mais informação do que qualquer ser humano em segundos é, por si só, uma vantagem competitiva. Não é. Nunca foi.

A McKinsey acompanhou mais de mil organizações e chegou a uma conclusão que deveria incomodar qualquer executivo: apenas 1% das empresas se considera maduro no uso de inteligência artificial. Ao mesmo tempo, 65% já a utilizam em pelo menos uma função do negócio. O que isso significa na prática? Que a grande maioria das empresas está fazendo, mas não está fazendo bem feito.

A inteligência artificial generativa chegou derrubando a barreira técnica que antes separava quem podia e quem não podia usar tecnologia de ponta. Hoje, qualquer profissional com um smartphone tem acesso a uma capacidade cognitiva que, há dez anos, exigiria uma equipe inteira de especialistas. E é exatamente aí que mora o problema. Quando a barreira técnica cai, o que deveria emergir no lugar é o pensamento estratégico. O questionamento. O critério. O porquê, o como e o quando. O que emerge, na maioria dos casos, é o oposto: a delegação irresponsável.

Um estudo da Harvard Business School com 758 consultores do BCG usando GPT-4 revelou algo que poucos têm coragem de admitir: dentro das capacidades da ferramenta, os profissionais entregaram 40% mais qualidade em 25% menos tempo. Impressionante. Mas o mesmo estudo mostrou que, quando o problema exigia julgamento qualitativo mais sutil — fora da chamada fronteira da IA —, quem usou a ferramenta sem critério teve 19 pontos percentuais menos chance de acertar do que quem trabalhou sem ela. A IA, usada sem curadoria, piorou o resultado. 

Esse é o dado que os entusiastas raramente citam. E é o dado que todo CEO deveria imprimir e colar na parede da sala de reunião.

O problema não é a tecnologia. Nunca foi. Um levantamento da BCG com centenas de empresas mostrou que 70% do valor gerado pela inteligência artificial vem de pessoas e processos — não de algoritmos. Apenas 10% vêm da tecnologia em si. As empresas que lideram a transformação por IA não são as que têm o modelo mais sofisticado. São as que redesenharam como pensam, como decidem e como operam. São as que tratam a IA como uma extensão da inteligência humana, não como um substituto para ela.

E, ainda assim, 74% das organizações não conseguem escalar a IA além de projetos-piloto. A Gartner estima que pelo menos 30% desses projetos serão abandonados até o final de 2025. O MIT, em análise de mais de 300 implementações corporativas, concluiu que 95% das empresas que investiram em IA generativa não obtiveram retorno financeiro mensurável. Noventa e cinco por cento. Não é uma crise de tecnologia. É uma crise de liderança.

O líder que entende esse momento não é o que usa IA para produzir mais rápido. É o que usa IA para pensar melhor. É o orquestrador: aquele que sabe quando delegar à máquina, quando intervir, quando questionar o output e quando descartar. É o que define os critérios de qualidade antes de apertar o botão, não depois. A Microsoft Research publicou em 2025 um alerta que deveria ser lido em toda cúpula executiva: o uso intenso de IA sem intencionalidade reduz mensuravelmente o pensamento crítico dos profissionais. Ganhamos velocidade e perdemos julgamento. É uma troca que nenhuma empresa deveria aceitar em silêncio.

Fazer é fácil. Nunca foi tão fácil. Em poucos segundos, qualquer pessoa gera um relatório, uma análise, uma estratégia aparentemente coerente. O que é difícil — e cada vez mais raro — é fazer bem feito. É ter o discernimento de saber o que a ferramenta não enxerga. É fazer as perguntas certas antes de aceitar as respostas prontas. É ser humano onde a máquina é só processamento.

A vantagem competitiva dos próximos anos não estará em quem tem acesso à IA. Todo mundo terá. Estará em quem tem o pensamento estratégico para usá-la com critério. E critério, até hoje, nenhuma inteligência artificial aprendeu a ter.

Autor

Raul Nogueira

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